quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

EU SEI, MAS NÃO DEVIA

Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia. A gente se acostuma a morar em apar-tamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma, a não abrir de todo as cortinas. E por que não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cede à luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã, sobres-saltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jor-nal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite.A cochilar no ônibus porque está cansado.A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra e acei-tando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando o nú-mero aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pes-soas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser vis-to. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E, a saber, que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pa-gar nas filas em que se cobra. A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição. À Luz artifi-cial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À Contaminação da água do mar. À luta, à lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta. A gente se acostuma a coisas demais, para não so-frer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor. Aqui, um res-sentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a Praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o traba-lho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A Gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Acostuma-se para evitar feridas, Sangramen-tos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostu-ma para poupar a vida que aos poucos se gasta, e que, de tanto se acostumar se perde de si mesma. Marina Colasanti.


DILMA PINHEIRO

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