À primeira vista, o som parecia ensurdecedor, mas eu conseguia perceber nitidamente cada fala. “Bananada é ‘10’’, “Pipoca Ki-Delícia é ‘25’, “Torcida é ‘60”, “Amendoim Santa Helena é ‘30”... É, meus companheiros de viagem eram um pouco barulhentos, mas eu já havia me acostumado à ‘trilha sonora’ e até conseguia rascunhar uma resenha ao som dos ambulantes do trem. Sim, eu estava a caminho de casa, na volta da faculdade, e acho que o mais adequado seria chamá-los de comerciantes ferroviários.
Não se trata de nenhuma intervenção que pretenda ser ‘politicamente correta’, é uma constatação mesmo. Eles têm a sacada de trocar o produto oferecido de acordo com a demanda. Por exemplo, o cara que oferece cerveja estupidamente gelada (aos berros, diga-se de passagem) num dia quente, estará vendendo batatas chips ou biscoitos no inverno. E olha que nem falei ainda da enorme variedade de artigos oferecidos constantemente. Pomadas milagrosas, sabonetes anti-calvície, anti-micose e outros anti que prefiro não citar agora, caldo de carne, alho, carne-seca!!, naftalina, presilhas de cabelo (“Piranha 1 real”, grita o vendedor), rádio de pilha... No Natal passado, devo confessar, a sala de minha estava lindamente decorada com uma guirlanda comprada no trem de Japeri (à R$ 1,00!!!!, não resisti).
Através da experiência, os caras desenvolveram jingles para a promoção dos artigos. A bananada é “Preta, macia e açucarada.”, o amendoim é “Torrado e amanteigado.”, e a pele (sim, é este o nome) “É comida de bacana, não mata a fome mas engana”. Genial.
Eu seria extremamente injusta se não falasse da ética que acompanha esses trabalhadores. Se um entra num vagão e anuncia seu produto ao mesmo tempo em que outro, ambos utilizam uma espécie de macete e só pronunciam-se no intervalo da fala do outro. Ou seja, embora pareçam falar juntos, cada um ‘ganha o seu’ numa boa. E a comunicação entre eles? Explico: os guardas da Supervia costumam concentrar-se em estações de grande movimento (Deodoro, Engenho de Dentro), e os ambulantes sabem disso. Quando ocorre uma troca na vigilância e os guardas estão em estações diferentes, e os trens se cruzam em alguma parada, os camelôs se avisam uns aos outros sobre a localização do ‘rapa’. Bacana, não é?
Engraçadas são as táticas que eles utilizam para driblar a fiscalização. Uma delas consiste em se disfarçar de passageiro. O sujeito encontra um lugar vago e senta-se. Faz uma cara de paisagem que convence até o mais desconfiado dos seres humanos, e por vezes finge até dormir. Mas é só a composição (é assim que a Supervia chama os trens) afastar-se da estação, que ele desfaz seu embrulho e inicia mais uma viagem de trabalho.
Outra técnica é pedir a um passageiro que ‘adote’ temporariamente seu embrulho, ou o esconda dentro dos bancos (só de observar, já sei até onde fica a trava para abri-los).
É, nestes dois anos de viagens diárias, aprendi a respeitar e até mesmo admirar essas pessoas que fazem ‘malabarismo’ sobre os trilhos para sobreviverem. Eles, como diz o novo ditado, “são brasileiros e não desistem nunca”.
Patrícia da Silva
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
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